Infraestrutura natural será legado das gerações futuras, opina Harri Lorenzi

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Na semana em que se comemorou o Dia de Proteção às Florestas, o engenheiro agrônomo e botânico Harri Lorenzi concedeu entrevista à Assessoria de Comunicação da Agência das Bacias PCJ, após participar de reunião do Grupo de Trabalho Rede de Áreas Protegidas dos Comitês PCJ, na Fundação José Pedro de Oliveira (Arie Mata de Santa Genebra), em Campinas.

Atuante em temas ligados à preservação ambiental em uma época em que pouco se discutia a importância de cuidar de matas e rios, Lorenzi é uma “lenda vida” na área da botânica, com mais de 30 livros publicados. Ele é o idealizador e um dos fundadores do Instituto Plantarum de Estudos da Flora (www.plantarum.com.br) e do Jardim Botânico Plantarum (www.plantarum.org.br), em Nova Odessa, um centro de referência em pesquisa e conservação da flora brasileira.

Para Lorenzi, temas, como infraestrutura natural e crescimento sustentável e consciente, que abrem espaço para a coexistência de desenvolvimento e recursos naturais, será algo que ficará como legado a partir de gerações futuras. “Sem dúvidas, hoje, está havendo um aumento de interesse por esses temas”, diz. “Se compararmos com os anos 80, quando eu comecei a correr atrás de plantas e estudá-las, tudo mudou significativamente. Mas a maior mudança ocorrerá a partir das novas gerações. Nas pessoas adultas, é muito difícil mudar essa consciência. A publicidade que se faz sobre o tema é bastante forte e chega a influenciar, mas posso garantir que ações efetivas de recuperação ainda são pontuais. Não é aquilo que todo mundo acha. As empresas estão investindo aqui e ali, mas é necessário olhar de uma forma microscópica; tudo ainda é bem pontual”, frisa, destacando que há um longo caminho a ser seguido.

A própria necessidade, segundo ele, levará gerações futuras a agirem no sentido de expandir a preservação ambiental. “Conscientização só não resolve. Eu espero que as futuras gerações tenham essa consciência e ajam no sentido de expandir de fato projetos de preservação ambiental. Porque, sem isso, não há condições de sobrevivência. A gente percebe o afrouxamento da legislação, por exemplo, em todos os segmentos ambientais. E isso é assustador”, diz.

Confira abaixo entrevista completa com Lorenzi, durante a qual foram tratados temas como a valorização do meio ambiente e importância da preservação para o futuro da vida. Ele também falou sobre o Relatório Final do Levantamento da Vegetação Natural de três fragmentos da Mata Atlântica em Nova Odessa, que deverão ser restaurados a partir de termo de cooperação, que deverá ser assinado ainda este ano entre a Fundação SOS Mata Atlântica, Instituto de Zootecnia do Estado de São Paulo (IZ) e Jaguatibaia Associação de Proteção Ambiental.

Na reunião do GT-Rede de Áreas Protegidas dos Comitês PCJ, você apresentou o relatório final do levantamento da vegetação natural no último remanescente de Mata Atlântica do município de Nova Odessa, na fazenda do IZ (Instituto de Zootecnia do Estado de São Paulo). O que esse trabalho representa?

Harri Lorenzi: Para nós era muito importante para conhecer o que realmente estava sendo feito na região de Nova Odessa quanto à vegetação natural. Porém, hoje, posso afirmar que esse assunto vai muito além; esse é um trabalho fundamental. Existe um plano de recuperação daquela área, do entorno desses fragmentos e dos próprios fragmentos, e isso norteará basicamente quais as espécies que serão introduzidas na área. Deve-se seguir esse estudo, porque, basicamente, ele traz uma amostragem completa, e não pontual, desses fragmentos. Abrange uma área de quase 40 hectares, que foi percorrida em várias oportunidades durante o ano.

Isto é, o levantamento é muito fiel. A área estava detonada, mas existiam remanescentes. Lógico que alguma coisa se perdeu, e a gente não viu. Mas, a princípio, o que estava lá deve ser considerado neste projeto. Essa área pode ser recuperada, sem ter que introduzir coisas "alienígenas". No levantamento, identificamos 158 espécies arbóreas e outras 244 herbáceo-arbustivas.

Nos últimos anos, há uma tendência de aumento dos investimentos em projetos relacionados à “infraestrutura natural”, principalmente após a crise hídrica de 2014/2015. Qual sua avaliação sobre isso?

Harri Lorenzi: Sem dúvidas, hoje, está havendo um aumento de interesse por esses temas. Se compararmos com os anos 80, quando eu comecei a correr atrás de plantas e estudá-las, tudo mudou significativamente. Mas a maior mudança ocorrerá a partir das novas gerações. Nas pessoas adultas, é muito difícil mudar essa consciência. A publicidade que se faz sobre o tema é bastante forte e chega a influenciar, mas posso garantir que ações efetivas de recuperação ainda são pontuais. Não é aquilo que todo mundo acha. As empresas estão investindo aqui e ali, mas é necessário olhar de uma forma microscópica; tudo ainda é bem pontual.

Pode ver a situação das cidades: o descaso que existe com as áreas verdes, de acesso público, que deveriam ser o início de tudo. Não adianta só plantar uma vegetação ao longo de um córrego, sem acesso da população. A gente tem que começar isso na cidade para que as pessoas possam avaliar a importância disso. Se não, para que serve uma floresta se ninguém pode usufruir? Serve apenas para conservar! Mas, acho que a consciência maior advém da interação da população com essas áreas. Como é o caso aqui, da Mata de Santa Genebra, em que se abriu e se criou estrutura para receber visitantes. Isso realmente faz a diferença.

O senhor não acredita que o ser humano será forçado a valorizar o meio ambiente diante da necessidade de sobrevivência?

Harri Lorenzi: Com certeza, porque estamos vendo o aumento das crises hídricas, do aquecimento global. As pessoas estão percebendo. As áreas verdes de acesso público são fundamentais. É algo que já aconteceu nos países desenvolvidos muitos e muitos anos atrás. Basta ver as grandes cidades europeias, que há mais de mil anos se preocuparam e reservaram áreas para a conservação e preservação, abertas à visitação pública.

Hoje, aqui, eu percebo que todos os dias se criam novas cidades nas fronteiras agrícolas da Amazônia, Mato Grosso, e que, simplesmente, a primeira providência é limpar totalmente a área. Não deixam nem um metro quadrado para a vegetação natural. Isso é um absurdo. Como assim? No século 21 e as pessoas estão com essa mentalidade?

Na sua avaliação, qual a importância do Jardim Botânico Plantarum, considerado um centro de referência nos estudos da flora brasileira?

Harri Lorenzi: É um sonho antigo, mas não apenas pessoal. É um sonho coletivo. A gente quer que aquilo irradie experiências e exemplos para a população como um todo. Além da preservação da flora, lá nós conservamos mais de 4 mil espécies. Mais do que tudo, queremos que isso sirva de exemplo para cidades que desejam, de fato, proporcionar à população lazer contemplativo e educativo de qualidade. Educativo, no sentido de que o jardim é um ensino como um museu a céu aberto; está aí para as pessoas verem e aprenderem.

Há algum projeto para expandir o Plantarum para outras cidades?

Harri Lorenzi: Sim, estamos pensando em fazer isso em uma região turística. Inclusive, em outros estados, mas em uma região turística. Um projeto desses em uma cidade não turística, como é Nova Odessa, tem mínimas chances de sucesso. Tudo bem, o que foi construído lá em Nova Odessa será mantido até quando tivermos condições. E, também, até quando gerar recursos próprios para isso, porque não vemos nenhuma possibilidade de termos recursos advindos de outras fontes. Então, a gente pensa assim: abrir uma filial do Jardim Botânico em um lugar que possa ter sucesso e que auxilie na manutenção do Plantarum de Nova Odessa, que é mais completo e antigo.

Além do Jardim Botânico Plantarum, você é fundador do Instituto Plantarum de Estudos da Flora, uma editora com publicações que são referências nacional e internacional na área de botânica. Como é esse trabalho?

Harri Lorenzi: É uma atividade que já fazemos há 42 anos. São praticamente mais de 30 publicações, incluindo livros eletrônicos e aplicativos. O livro impresso, em si, vem perdendo espaço para a internet, para o Google. A gente não sabe até quando vamos conseguir fazer isso. Inclusive, vários projetos foram abortados, porque não vemos mais chance de serem viáveis economicamente.

Estamos trabalhando num quarto volume sobre árvores brasileiras, mas provavelmente vamos ter que abortar, pois não vemos possibilidade dele se pagar por um futuro lançamento. Cada vez estamos fazendo menos, se adaptando à nova situação.

Por outro lado, já estamos investindo bastante na área digital. Mas, exceto no Brasil, em todos os países os aplicativos e livros eletrônicos fizeram sucesso. Aqui não pegou. Não temos muito mais o que fazer. Com a internet, o acesso à informação é democrático e quase que gratuito, mas alguém precisa gerar esses conhecimentos. O conhecimento não surge do nada. No futuro, nós vamos, talvez, copiar o que os outros fizeram. Ninguém mais vai investir e levantar informações, a não ser o Poder Público, mas hoje até as universidades estão limitadas em recursos para fazer a prospecção botânica e levantar conhecimento nessa área, por exemplo.

O senhor acredita em um futuro melhor para o meio ambiente?

Harri Lorenzi: Sempre temos que ter esperança. Mas, a conscientização ambiental está muito lenta. Eu diria que a consciência até que está relativa, mas as ações são muito pontuais. No frigir dos ovos, quando você vai analisar alguns projetos que se divulgam aos quatro ventos, é muito pouco o que se faz. É necessário massificar muito mais, envolver o setor privado. Não adianta. O poder público não vai ter condições de fazer isso. A sociedade tem que se unir e se movimentar para fazer a coisa acontecer.

As necessidades são o principal impulso disso (despertar da consciência). Vai chegar um momento em que não vai ter muita solução. As pessoas precisam de água, e agora?

Acho que precisam mais ações. Conscientização só não resolve. Eu espero que as futuras gerações tenham essa consciência e ajam no sentido de expandir de fato projetos de preservação ambiental. Porque, sem isso, não há condições de sobrevivência. A gente percebe o afrouxamento da legislação, por exemplo, em todos os segmentos ambientais. E isso é assustador.